Tabagismo e cancro do pulmão

«Os pulmões humanos são criados para respirar ar puro»

 

O tabaco, a História e a Saúde da Humanidade

A descoberta do tabaco atribui-se aos nativos que viviam no continente americano, no ano 6000 a.C., que o começaram a utilizar em rituais religiosos e com fins medicinais. O tabaco é fumado há mais de dois milénios, pelo que a sua evolução e disseminação mundial ao longo dos séculos acompanhou os Descobrimentos, as Guerras Mundiais e outros grandes eventos da História.

A aposta na publicidade ao tabaco começou há mais de um século, o que o tornou num símbolo de estatuto, maturidade e elegância do fumador. Foram mesmo invocados os seus “benefícios” para a saúde! Tudo isto levou a uma verdadeira explosão do hábito de fumar, tendo o consumo de cigarros aumentado mais de 100 vezes no último século.

Assim, nas últimas décadas, tem sido possível verificar cientificamente os efeitos prejudiciais do tabagismo em múltiplas vertentes da saúde humana.

 

O tabagismo é, por larga margem, a principal causa de cancro do pulmão 

Em relação ao cancro do pulmão, o tabaco é o responsável direto de cerca de 90% dos casos. É a principal causa de morte oncológica e a quinta causa de morte global. Quem fuma tem pelo menos 10 vezes mais risco de ter cancro do pulmão do que quem não fuma.

Tal acontece porque o fumo do tabaco causa profundas e sucessivas alterações nas células que revestem as vias respiratórias pelas quais o ar que respiramos – e o fumo do tabaco – circulam. Consoante o tipo de célula respiratória anormal que prolifera, do fumo do tabaco podem resultar todos os tipos de neoplasias malignas do pulmão, que se designam por adenocarcinoma, carcinoma epidermoide, carcinoma de grandes células e carcinoma de pequenas células.

Contudo, ao contrário de outros fatores de risco para o cancro, como a idade, o tabaco é um fator de risco que se designa como modificável. Isto é, quem não fuma pode (e deve) não começar o hábito de fumar e quem fuma pode (e deve) deixar de fumar. E deixar de fumar é sempre benéfico, quer na presença, quer na ausência de diagnóstico de doença oncológica. No cancro do pulmão, assim como em outras doenças respiratórias e não respiratórias, deixar de fumar é sempre uma parte essencial do tratamento.

 

A dependência pela nicotina: o grande calcanhar de Aquiles

Se os malefícios do tabaco e os benefícios de não fumar e de deixar de fumar são tão bem conhecidos por todos, por que razão deixar de fumar nem sempre é fácil? O fumo do cigarro inclui, por um lado, substâncias carcinogénicas (que causam diversos danos complexos em células do organismo, potenciando o aparecimento de vários tipos de cancro) e, por outro lado, a substância aditiva (responsável pelo vício), embora por si não causadora de cancro: a nicotina. Portanto, o fumador mantém o hábito de fumar porque o seu organismo, mais especificamente o seu cérebro, pede nicotina. Múltiplas vias de comunicação do sistema nervoso central – sistemas de neurotransmissão – são modificadas pela nicotina, pelo que o fumador não só se sente bem quando fuma, mas também pode sentir-se bastante mal quando é privado do cigarro, o que se traduz em vários sintomas que se enquadram na síndrome de abstinência tabágica.

Esta ideia foi brilhantemente transmitida em 1984 por Philip Morris, uma grande figura da indústria tabaqueira: “Porque é que as pessoas fumam… para relaxar; pelo sabor; para ocupar o tempo; algo para fazer com as minhas mãos… Mas, sobretudo, as pessoas continuam a fumar porque se sentem demasiado desconfortáveis em deixar.”

 

Pode ser difícil, mas deixar de fumar é possível

Abandonar o hábito de fumar não é apenas um momento, mas sim todo um processo, chamado cessação tabágica. Todos os processos de mudança na vida humana passam por diversas etapas. Num extremo temos a total ausência de motivação para mudar, e no outro extremo temos o início das atitudes concretas que permitem que a mudança aconteça. Num ponto intermédio, encontramos as situações em que as pessoas estão divididas, indecisas. No caso particular do tabagismo, o fumador pode por um lado reconhecer os malefícios de continuar a fumar – como o risco de desenvolver cancro do pulmão –, mas por outro lado não querer abdicar do prazer que sente quando fuma.

Para ultrapassar estes obstáculos, é essencial que o fumador encontre em si os motivos para deixar de fumar. “Em geral, as pessoas são mais facilmente motivadas pelas razões que descobrem por si próprias do que pelas razões que os outros lhes oferecem.”, afirmou o matemático e filósofo Pascal. Não há fórmulas mágicas, mas é possível ajudar quem está motivado a deixar de fumar com várias estratégias sob orientação médica, que incluem terapias comportamentais e farmacológicas. Com este propósito, vários centros de saúde e hospitais disponibilizam consultas de cessação tabágica. Aconselhe-se com o seu médico assistente.

 

As novas formas de tabaco

Na tentativa de cativar os mais resistentes à cessação tabágica e “permitir aos fumadores fumar sem problemas”, já há muito tempo que se idealizam novas formas de tabaco potencialmente menos prejudiciais à saúde.

As alternativas ao cigarro convencional mais difundidas são o cigarro eletrónico e o tabaco aquecido. O tabaco sem fumo (“snus”) e o cachimbo de água (“shisha” ou “narguilé”) são mais usados, respetivamente, em países escandinavos e árabes.

Os primórdios do cigarro eletrónico remontam à década de 60. No entanto, a invenção do cigarro eletrónico como hoje o conhecemos data de 2003. Curiosamente, o cancro do pulmão foi o mote para tal criação. O pai do criador do cigarro eletrónico, Hon Lik, faleceu de cancro do pulmão, o que levou à busca por uma alternativa ao cigarro tradicional que não tivesse os mesmos efeitos negativos para a saúde. Nesse sentido, os fumadores recorrem frequentemente a cigarros eletrónicos para tentar deixar de fumar – porém, nessas situações, os fumadores muitas vezes acabam por se tornar consumidores de cigarro convencional e de cigarro eletrónico, o que é ainda mais nocivo do que “apenas” fumar cigarro convencional.

O tabaco aquecido produz vapor que expõe os seus consumidores a toxinas nocivas, algumas das quais não existentes no cigarro convencional e potencialmente capazes de causar cancro.

A generalidade da investigação independente revelou que as novas formas de tabaco são responsáveis por efeitos negativos e duradouros para a saúde, conduzindo ao desenvolvimento de doenças. Assim, a Organização Mundial de Saúde declara todas as formas de tabaco, convencional ou não, como danosas para a saúde humana. No entanto, o que se sabe atualmente é apenas a “ponta do icebergue” – ainda não se conhecem todas as consequências em saúde das novas formas de tabaco, particularmente no que diz respeito ao cancro do pulmão.

 

A 31 de maio, celebramos o Dia Mundial sem Tabaco

Lembre-se: tem sempre a ganhar se não fumar, antes ou depois do diagnóstico de cancro do pulmão! Não fumar diminui muito o risco de desenvolver a doença, aumenta a sobrevivência e acrescenta qualidade de vida.

Celebre o Dia Mundial sem Tabaco, escolhendo mais e melhor vida: não fume!

 

 

Dr. Tiago Oliveira

Médico de formação específica em Pneumologia do Centro Hospitalar e Universitário do Porto