O testemunho real de um paciente com Cancro do Pulmão

O texto abaixo foi-nos enviado por um dos leitores da nossa página. Paciente com Cancro do Pulmão há 5 anos, Victor Miguel conta-nos a sua história e o seu quotidiano com a doença até aos dias de hoje.


 

Setembro de 2015

56 anos

Exame efetuado na Medicina no Trabalho que acusou:

  • Glicemia um pouco alta
  • Tendência para Diabetes tipo
  • Excesso de peso – 98kg para 1.72m.

 

Tenho um trabalho muito sedentário pois sou bancário. Sou também um ex-fumador, pois deixei de fumar há mais ou menos 10 anos e tenho antecedentes de cancro na família.

Assim resolvi fazer um check-up rigoroso pela primeira vez. Comecei com os procedimentos habituais:  análises a tudo e mais alguma coisa. Tirando a glicemia um pouco alta tais como os triglicerídeos, estava tudo normal. Fiz depois uma colonoscopia que mais uma vez não acusou nada, mas para ter mais certezas fiz outra, a colonoscopia virtual.

Durante o exame, perguntaram-me se eu tinha tido algum problema pulmonar. Disse que não, a não ser as constipações normais, algumas mal curadas. A verdade é que Tinha uma pequena descoloração na base do pulmão direito, mas ainda assim quase impercetível.

Sabendo isto, resolvi falar com alguns médicos. Uns não valorizaram nada e outros acharam que devia ver o que era. Resolvi ir um pouco mais longe…

Falei então com um médico-pneumologista amigo e começamos a fazer vários exames. Todos os resultados eram negativos, mas o médico nunca desistiu de perceber o que se passava e no penúltimo exame que fiz nos hospitais da universidade de Coimbra, uma broncoscopia com recolha de tecido, voltou a dar negativo.

Tudo apontava para uma lesão benigna, com mais ou menos 7 centímetros. Ainda assim, eu não me convenci tal como o médico. Resolvemos avançar e fazer o último exame que se poderia fazer… uma biópsia. Pouco tempo depois veio o resultado:

Adenocarcinoma grau IV que estava encapsulado na base do pulmão direito.

Aí tudo na minha vida se desmoronou. Tive uma reação de revolta, medo, e não sei o quê mais. Nesse momento tudo se põe em causa: O que acreditamos, o que sentimos, a nossa vida, o nosso trabalho e só pensamos o que fizemos de mal para merecer isso.

Apesar de tudo, encarei a situação de frente. Lutei, chorei, e sofri muito. Nunca escondi nada de ninguém e todos à minha volta foram envolvidos: a minha família, os meus amigos, os meus colegas… É muito importante partilhar o que sentimos nesse momento e se guardas para ti o que pensas é muito pior.

Assim começou tudo. Inicialmente apontavam para cirurgia. Depois, devido à lesão não estar muito definida, passei a fazer quimioterapia com introdução de biológica experimental. A ideia era tentar definir melhor a lesão nestes 6 ciclos iniciais e ver o resultado.

Foi difícil… consegui mas com alguns problemas. Não é fácil, nem todos reagimos da mesma maneira. Ao fim destes ciclos o tumor ficou mais visível e diminuiu um pouco, o que me levou então a pensar que iria partir para a cirurgia. Não foi o que aconteceu…

Propuseram mais ciclos de quimioterapia. Nesta altura, e depois de uma conversa franca com todos os envolvidos, achei que devia pedir uma segunda opinião. Perguntei a vários médicos, inclusive especialistas em imagiologia. Deram indicação de dois sítios onde podia ir, e que eram referência no tratamento do cancro de pulmão:

A Fundação Champalimaud e IPO do Porto.

Optei pela Fundação Champalimaud. A minha assistência tinha acordo com eles e o meu filho mais velho vive em Lisboa, o que tornava tudo mais fácil. Marquei uma consulta e levei todo os meus exames, tendo também feito mais alguns que eles solicitaram e após várias reuniões deram-me uma conclusão: Tudo o que tinha descoberto antes estava correto mas eles achavam que devia avançar para a cirurgia. Assim foi.

Retiraram o pulmão. A adaptação não foi fácil mas tudo bem, faz parte.

Mais tarde um nova lesão apareceu-me no pulmão esquerdo. Por via das dúvidas fiz logo uma rádiocirurgia e ela foi contida. Em 2018 tive dois enfartes. Dizem-me que foi do tabaco e do excesso de peso, mas a quimio também foi culpada segundo o meu cardiologista.

Hoje vivo um dia de cada vez. Limitado, dependendo de oxigénio.

Mas estou vivo.

Faço uma vida muito regrada pois as saturações de oxigénio são baixas e começaram a afectar o cérebro. É a chamada hipoxemia.

Consegui estabilizar apesar de algumas pequenas lesões. Estou muito bem, perante as circunstâncias. Controlo o meu peso e perdi perto de 25 quilos. As glicemias voltaram ao normal assim como os triglicerídeos.

Quero com este meu testemunho alertar para termos cuidado. Estejam atentos ao vosso corpo e façam check-ups todos os anos. Insistam com os médicos pois muitas vezes eles desvalorizam os resultados dos exames, dizendo:  “Isso que você tem aí no pulmão é uma constipação mal curada… Não tem importância”

Não facilitem. Estejam atentos pois é muito importante. Peçam sempre uma segunda opinião.

Abraço!