Exercício Físico e Cancro

exercício físico pulmão

Em 2010, a Organização Mundial de Saúde (OMS) identificava a inatividade física como o 4º fator contribuinte para a mortalidade global, responsável por 6% das mortes, apenas precedida pela hipertensão arterial, tabagismo e hiperglicemia. [OMS 2010]

Antes de aprofundarmos a importância que a atividade física e exercício físico podem ter na jornada do doente oncológico, poderá ser útil clarificar os conceitos: [OMS 2018]

  • Atividade física: movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resultam em gasto energético. Pode ser ligeira, moderada e vigorosa.
  • Exercício físico: atividade física planeada, estruturada e repetitiva, com o objetivo de melhorar ou manter a aptidão e performance físicas ou a saúde. Pode ser, também, de intensidade ligeira, moderada e vigorosa.
  • Comportamento sedentário: qualquer comportamento, em vigília, caracterizado por um gasto energético de ≤5 METs (sentado, reclinado ou deitado). Exemplos: trabalho de escritório, condução ou sentado a ver televisão.
  • O intervalo-alvo de atividade física, com interesse para a saúde pública, é 150-300 minutos de atividade física moderada a intensa por semana.

 

IMPORTÂNCIA DO EXERCÍCIO FÍSICO NA JORNADA DO DOENTE ONCOLÓGICO


Em 2001 foi publicada a framework PEACE (Physical Exercise Across the Cancer Experience) (figura 1).

 

 

 

De acordo com esta, a experiência do cancro divide-se em 2 fases pré-diagnóstico (pré-rastreio e de rastreio/diagnóstico) e 4 fases pós-diagnóstico (pré-tratamento, tratamento, pós-tratamento e retorno), nas quais se postulava que o exercício físico poderia ter impacto, nomeadamente na prevenção, pré-habilitação, tolerância aos tratamentos, reabilitação e paliação. [PEACE].

Desde então até à atualidade, muitos estudos foram publicados em qualquer uma das fases. De seguida, passaremos em revista a evidência mais atual em cada fase da doença oncológica.

  1. FASE PRÉ-DIAGNÓSTICA E PREVENÇÃO:

As pessoas menos ativas têm maior probabilidade de ter as ditas doenças não transmissíveis, como a doença cardiovascular, a diabetes e o cancro. Em 2010, a OMS estimava que a inatividade física fosse a principal causa de 21 a 25% dos casos de cancro da mama e de cancro do cólon. [OMS 2010] A evidência, desde então, tem aumentado pelo que, em 2018, a OMS atualizou a lista das neoplasias cujo risco parece aumentar com a inatividade física, passando a incluir, também, cancro da bexiga, do endométrio, esófago, rim e pulmão. [OMS 2018]

Neste ano, foi publicada a análise de 755459 indivíduos (dos EUA, Europa e Austrália), seguidos ao longo de vários anos. Neste estudo, confirmou-se que o cumprimento das recomendações da atividade física parece estar associado à redução do risco de algumas neoplasias (cancro da mama, cólon, endométrio, rim, mieloma, fígado e linfoma não Hodgkin). [JCO 2020]

  1. FASE PÓS-DIAGNÓSTICA E PRÉ-HABILITAÇÃO

A pré-habilitação é a otimização da capacidade funcional e cardiorrespiratória do doente antes de começar os tratamentos. Tem sido mais estudada antes das cirurgias, no entanto é aplicável antes de outros tratamentos, como a quimioterapia e/ou radioterapia.

A medida mais utilizada é a aptidão cardiorrespiratória (ACR), avaliada pela prova de esforço. Esta avalia a função cardiovascular global. Sabe-se que diminuições da ACR estão relacionadas com maior ocorrência de toxicidades dos tratamentos, maior gravidade da fadiga e aumento da mortalidade geral e por cancro. [AHA 2019] A ACR dos doentes oncológicos é mais baixa que os dos indivíduos saudáveis da mesma idade. Os tratamentos oncológicos parece que conduzem ao envelhecimento precoce de cerca de 10 anos. [Lee Jones 2012]

Estes achados enfatizam a importância da otimização da aptidão cardiorrespiratória antes dos tratamentos. São vários os ensaios clínicos que estudaram programas de exercício físico antes da cirurgia, principalmente no cancro coloretal, de que são exemplos os trabalhos de Minella et al e de West et al. Estes têm demonstrado que um programa de exercício físico destinado a aumentar a ACR antes da cirurgia permite recuperar a ACR para valores similares ao baseline após a recuperação pós-operatória. [Minella et al] [West et al]

  1. DURANTE OS TRATAMENTOS:

Durante a quimioterapia, também existe evidência robusta sobre os efeitos do exercício físico, nomeadamente de intensidade moderada-intensa e combinado (aeróbio e resistido), a nível da funcionalidade física e efeitos secundários da quimioterapia. [Courneya KS et al] [Sara Mijwel et al]

Um dos efeitos secundários que mais interesse tem suscitado é a cardiotoxicidade dos tratamentos médicos e/ou radioterapia do mediastino ou parede torácica. O exercício físico é uma medida terapêutica não farmacológica recomendada pela American Heart Association [AHA 2019] bem como pela European Society of Medical Oncology [ESMO 2020]. Contudo, a posologia dirigida a este efeito ainda não está definida. O mesmo se passa com outros problemas oncológicos induzidos pela quimioterapia, como a neuropatia periférica, imunossupressão e náuseas/vómitos, o que os torna áreas atuais de investigação [ACSM 2019].

  1. REABILITAÇÃO PÓS-TRATAMENTO

Após o tratamento, são vários os problemas para os quais a evidência científica é forte o suficiente no que diz respeito à dose adequada. São eles: ansiedade, depressão, fadiga, qualidade de vida e funcionalidade física. Isto significa que existem doses já estabelecidas de exercício físico de forma a atenuar estes problemas relacionados com o cancro e seu tratamento. De acordo com as mesmas recomendações, do American College of Sports Medicine, também para o linfedema relacionado com o cancro da mama, a evidência é forte o suficiente para se considerar que, sob supervisão adequada, não existe risco de agravamento. [ACSM 2019]

  1. DOENÇA AVANÇADA

A este nível, apesar de menos robusta, existe evidência suficiente para o exercício físico, tanto aeróbio como resistido, ser recomendado nos doentes com doença avançada com melhoria na funcionalidade, na fadiga e na qualidade de vida. [Dittus KL] [Heywood R et al]

 

EXERCÍCIO FÍSICO COMO MEDICAMENTO – CONSIDERAÇÕES FINAIS

O exercício físico não deve ser encarado como a panaceia de todo o mal. Não “é como o Melhoral®, não faz bem nem faz mal”, como infelizmente ainda é encarado por diversos setores da sociedade, inclusive alguns profissionais de saúde.

No caso da doença oncológica, é uma medida terapêutica de suporte que, como referido antes, tem efeito benéfico em vários problemas dos doentes e sobreviventes oncológicos. Tal como os restantes tratamentos, é benéfica quando administrada nas doses certas. Tal como outros medicamentos, tem efeitos secundários associados, que devem ser identificados, graduados e abordados. Se mal administrado, poderá ter complicações limitantes, algumas das quais potencialmente fatais.

Assim, é importante referir que a prescrição do exercício físico é realizada de acordo com os princípios FITT – frequência, intensidade, tipo e tempo. É a junção destes que permite atingir as doses adequadas.

A prescrição de exercício físico deverá ser encarada com a responsabilidade de outras prescrições, sejam de medicamentos ou de medidas. Deverá ser efetuada por profissionais com competência e que estejam enquadrados em equipas multidisciplinares, que tenham rede de suporte para resolver potenciais complicações.

De forma a que se possa desenvolver esta área de conhecimento, é fundamental que exista aproximação das equipas.

  • A nível de investigação, a verdadeira translação, do laboratório de Ciências do Desporto para a comunidade, só poderá acontecer com o envolvimento dos clínicos. Para tal, será necessária uma aproximação das duas áreas de conhecimento. Os ensaios clínicos que estudam o exercício físico deverão ter uma avaliação sistematizada das doses efetivamente administradas e dos efeitos adversos, à semelhança do que ocorre com os medicamentos.
  • A nível clínico, é fundamental que a Medicina Física e Reabilitação assuma o papel de interligação com as restantes áreas de diagnóstico e terapêuticas, em particular a Oncologia Médica, as especialidades cirúrgicas e a Radioncologia. Obviamente que só será possível se as entidades governativas e a sociedade definirem a reabilitação integrada do doente e sobrevivente oncológico como uma prioridade ao longo da sua jornada, à semelhança do que acontece com a Reabilitação cardíaca.

Apesar de existirem estas, e outras, oportunidades de melhoria, hoje em dia já se sabe muito do bem que faz ao doente e sobrevivente oncológico ser fisicamente ativo, desde que aconselhado e acompanhado por equipas especializadas.

Sejam ativos.

 

Doutora Ana Joaquim