Cancro do pulmão: novas opções terapêuticas, mais qualidade de vida

Novos paradigmas e um caminho de inovação têm permitido dar mais e melhor qualidade de vida aos doentes, ou não fosse o cancro do pulmão, o que mais mata em Portugal, sobretudo em homens, realidade que acompanha a tendência mundial. Estima-se que em 2018, tenham sido diagnosticados 5200 novos casos deste tipo de cancro no nosso país, segundo dados da Agência Internacional para a Investigação do Cancro.

Integrado no painel “Facing the challenges of new lung cancer drugs”, António Araújo, director do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Universitário do Porto (CHUP) e professor catedrático do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, falou do papel do médico no que respeita às novas opções terapêuticas. “Quando tenho um doente à minha frente, tento aumentar a quantidade e a qualidade de vida, a um custo razoável para a instituição e para a sociedade”, referiu.

A inovação tem um impacto claro e positivo na vida dos doentes, mas são muitos os desafios colocados aos médicos. Uma vez que cerca de entre 60 a 70% dos doentes procuram ajuda especializada demasiado tarde e em estádios mais avançados da doença, as várias alternativas têm de ser ponderadas. “Esta doença não dá grandes opções. Se errarmos à primeira, pode evoluir rapidamente e não permitir grande alternativa de tratamento”, alerta o médico oncologista.

No entanto, existem novas terapêuticas que ajudam a tratar melhor. É o caso da Medicina de Precisão ou Medicina Personalizada, já disponível em Portugal, para casos muito bem seleccionados de doentes e que permite adaptar o tratamento a cada doença. “Actualmente, com a determinação de alvos no tumor – responsáveis pelo seu desenvolvimento – podemos utilizar terapias dirigidas a esses alvos, bloqueá-los e impedir o seu desenvolvimento. Também com o advento da imunoterapia, mudou-se o paradigma do tratamento do cancro do pulmão, pois permite não tratar directamente o tumor e modelar o sistema imunológico do doente para que seja o mesmo a tratar o cancro”, explica António Araújo.

Um dos desafios que se coloca aos médicos para dar resposta às várias opções terapêuticas que têm vindo a surgir, é a questão dos biomarcadores preditivos de resposta ao tratamento [alterações genéticas do tumor que predizem resposta ao tratamento]. “É fundamental que o médico possa ter acesso à determinação dos biomarcadores para poder escolher o melhor medicamento possível para o seu doente. Mas a percentagem de médicos que acede aos mesmos ainda é relativamente baixa, e isso verifica-se, não só a nível nacional, como a nível europeu”, lamenta o professor, justificando a situação com o facto de estas tecnologias serem ainda muito recentes e estarem associadas a custos elevados.

 

Doentes no centro da decisão

Esta edição do “Inspired Evolution” deu também destaque ao papel dos doentes – uns com maior literacia em saúde do que outros – nas decisões a tomar consoante as opções de tratamento que lhes sejam apresentadas. Fernando Barata é presidente do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão e director do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e moderou a mesa redonda intitulada “What lays ahead” dedicada à apresentação de dois estudos internacionais que demonstraram os benefícios de outras terapias em doentes que eram tratados apenas com quimioterapia e que passaram a receber tratamentos que conjugam imunoterapia, de forma concomitante.

O caminho de evolução terapêutica tem vindo a ser inspirador, como se constatou nesta reunião, e motivador para uma melhor prática clínica. “No início deste milénio, tratávamos praticamente todos os doentes em fase avançada de doença com quimioterapia, mas temos hoje uma série de opções (terapêuticas alvo e imunoterapia) com fármacos muito melhor tolerados, e que permitem que o doente faça a sua vida normal, o que tem sido um avanço extraordinário”, refere Fernando Barata.

Como resultado, tem sido possível aumentar a esperança média de vida de doentes em estádio avançado de cancro do pulmão. E terão eles próprios uma palavra a dizer? Algumas apresentações do “Inspired Evolution” destacaram a importância de os médicos partilharem as opções terapêuticas com os doentes para, em conjunto, decidirem a melhor abordagem. Foi ainda dada voz à Pulmonale – Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão – com a presença da presidente Isabel Magalhães que deu a conhecer alguns dos objectivos da associação na capacitação dos doentes, através de disseminação de informação credível e actualizada, apresentando ainda algumas campanhas desenvolvidas para sensibilização da população.

 

Fonte Notícia: Público